Dirceu Pires Terres Pseud.: Guasca Velho Gaúcho velho largado pede aqui um intervalo para decantar seu cavalo, seu pingaço de renome, que não teme lobisome, nem de cucharra pealo. Agora vou decantá-lo: passo a faca no rebolo, manuseio o fumo em rolo, vou soltando a versalhada inda que meio estropiada pra elogiar o Crioulo. É cavalo pra peão, de resistência e alento, mui barato o seu sustento, servindo para soldado, sabe dormir no molhado, agüenta firme o relento. É de pêlo bem variado: gateado, baio, lobuno, zaino, rosilho, cebruno, mouro, chita, também é, e às vezes sai pangaré, buenaço mesmo reiúno. Tordilho salino é Crioulo de muita lei pra nadar, bicho bueno pra apartar... não quero pêlo tostado nem tordilho apatacado... Tobiano só pra olhar... Um e quarenta de alçada é o tamanho especial, com mais de cinco é o ideal. Um e cincoenta é grandão, dando um tipo almanjarrão só pra cruzar banhadal. Gosto de "Peito de pomba" com costela bem arqueada: agüenta bem na tropeada, porque tem pulmão de ferro. Se o guasca le dá o "berro", tem o "folgo" pra arrancada. Cavalo de muita "massa" com muito pêlo na pata, pisando em cima ns mata: não agüenta o dia inteiro só serve para pipeiro e ao guasca sempre maltrata. Esse nunca foi Crioulo... Na certa que é de tração, não vale mais que um tostão: é matungo bem sotreta, não se mete de paleta, chora pra ser dormilão. Crioulo com muito "osso" não pode pular em valo precisa muito esporeá-lo para isso poder fazer e o mango firme meter, para conseguir passá-lo. Para que serve o güesudo? Mesmo assim ao batizá-lo, cabe sempre rechaçá-lo, padrillo não deve ser - e ninguém irá comer um caracu de cavalo! Para escolher o bom pingo aqui les dou instrução: olhe bem o seu garrão, busque a corda destacada, que a pata seja aprumada, e bem à mostra o tendão. "Cáalo" de bom movimento olho vivo se requer, boa anca se faz mister. O gaúcho e tarimbeiro, que se sai sempre folheiro pra escolher pingo e mulher! Não serve a canela fina, com muito pouco tendão: falta força no garrão, quase sempre anda caindo, pior que vaca parindo por cima de qualquer chão. Prefere o "casco de copo", nunca o casco de panela: falta força na canela, é um chaira pra tropeçar, se não sabe sair dela. A cabeça do Crioulo deve ser piramidal, se ajusta bem ao boçal, é mui linda de se ver e sempre de requerer num cavalo especial. Orelha de burro - não! "Cabano" de desprezar: abana, mesmo ao trotear... Prefiro orelha em tesoura cavalo que não desdoura e sabe se destacar. A crina deve ser larga... Cola fina: suspeitar! Somente buena pra atar, para "iludir o freguês", que é do Árabe ou Inglês que pode se originar. Foi esse cavalo bueno, trazido por espanhóis e, depois de muitos sóis, por aqui se reproduziu e o continente invadiu qual praga de caracóis. E a pastar sempre ao léu, caçado pela indiada, para servir de montada, por vezes carne les deu, pois o índio é mui "judeu" e aos outros nem deixa nada! Tendo o número aumentado, foi virando chimarrão... Cola arrastando no chão, procriou ao "Deus dará", junto à onça e ao guará, a correr pelo rincão... Agüentando as intempéries, muita chuva, muito frio, minuano, sede no estio, foi formando o seu valor: pra domar "dava calor" e afrouxar nunca se viu! Foi assim que ele venceu as forças da Natureza, pela sua fortaleza pra dar vida ao Continente, que tudo deve ao valente, que é ardor, força e beleza! A liberdade que tenho - eu e todo o bom gaúcho - despidos de qualquer luxo, devemos toda ao Crioulo, que foi o nosso consolo, para "ag%uentá o repuxo"! Nas cruas guerras passadas, tão bela parte tomou que o guasca as glórias ligou ao valor dessa montada, pois até de madrugada o pingo, firme, agüentou. Foi assim em "Trinta e Cinco", na campanha Farroupilha: o Crioulo na coxilha, só tendo capim no bucho. Foi comparsa do gaúcho da argola até a presilha. O mesmo em "Noventa e Três" ou em "Trinta" ou noutra data. O gaúcho não maltrata mas, se querem maltratá-lo, se tentarem "esporeá-lo", ele logo se "desata"! Em "Vinte e Três" também foi um companheiro ideal. Na serra, no pajonal, ele só se agüentou: muito mestiço afrouxou, por não ter valor igual! Poderia ir muito longe, descrevendo o meu cavalo... Mas deixo aqui de exaltá-lo, como pingo do gaúcho, que sabe "aguëntá repuxo", de coração adorá-lo. Por isso remato a "trança", antes que saia algum "bolo", embora fique o consolo de tê-lo cantado assim: um pingo que não tem fim - O meu cavalo Crioulo! |
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O Meu Cavalo Crioulo
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário